“Os Lusíadas”, publicado em 1572 e contendo 10 cantos, que enfiexam 1102 estâncias (estrofes), em oitava-rima (com rima em abababcc), ou 7716 versos decassílabos heróicos (com censura na 2.ª sílaba, ou 3.ª, ou 4.ª e 6.ª e 10.ª), - a epopéia camoniana divide-se me três partes: a INTRODUÇÃO, que ocupa as 18 primeiras estâncias, repartindo-se em Proposição (est.1-3), ou seja, o assunto do poema “As armas e os barões assinalados”, “Cantando espalharei por toda a parte”; Invocação (est.4-5) às Tágides, musas do Rio Tejo; e Oferecimento (est.6-18) ao Rei D.Sebastião que subvencionou a publicação da obra; a NARRAÇÃO (Canto I – est.19 ao Canto X – est.144) e EPÍLOGO (Canto X – est.145-146).
Passo 2 - Quem são os narradores de cada um dos mencionados instante? Qual deles se posta prol navegações e qual se coloca contra? Por quê? Ilustre sua hipótese com exemplos emblemáticos do próprio poema.
CANTO I
Contem a introdução, a invocação e o oferecimento por CAMÕES. A narração tem início na estrofe 19, com os portugueses já em plena viagem, no oceano Índico. Enquanto isso, os deuses reúnem-se no Olímpo ( é o concílio dos deuses), para decidir à sorte dos portugueses: permitir ou não que eles cheguem às Índias. Vênus (est.33) e Marte (est.36-40) são favoráveis ao empreendimento. Baco, deus do vinho, é contrário (est.30). O sucesso dos portugueses poderia ofuscar a celebridade do deus nas Índias (est.31-32).
Júpiter, o mais poderoso dos deuses, permite que a viagem continue (est.41).
Em Moçambique, os portugueses enfrentam uma cilada preparada por Baco (est.69). A narrativa prossegue até a chegada a Mombaça (est.103-106).
CANTO II
Baco prepara outra cilada: disfarçado de cristão, tenta convencer os portugueses a desembarcarem (est.2-4). Vênus intervém, impedindo que os lusitanos sejam derrotados pelos mouros (est.21).
A frota chega a Melinde (est.101), onde é festivamente recebida.
CANTO III
A pedido do Rei de Melinde, Vasco da Gama começa a contar a história de Portugal. Descrita a Europa, o nauta inicia sua narração com a fundação da Lusitânia por Luso (est.23-26), passa por D.Henrique de Borgonha e continua com os principais eventos históricos: o de Egas Moniz (est.278), a batalha de Salado (est.908), a história de Inês de Castro (est.118-143).
CANTO IV
Narram-se outros fatos importantes da história de Portugal, até atingir o início da viagem de Vasco da Gama. Quando os portugueses estão preparados para deixar o porto de Restelo rumo às Índias, surge um velho que critica severamente o empreendimento, acusando os portugueses da validade e cobiça excessivas. Esse episódio é conhecido como A FALA DO VELHO DE RESETELO (est.94-104).
CANTO V
A frota esta em Melinde. Vasco da Gama narra a viagem realizada pela costa africana, o cruzamento do Equador e detêm-se no ponto que foi o mais difícil da aventura: a travessia do cabo das Tormentas, que aparece personificado pelo Gigante Adamastor (est.37-60).
CANTO VI
A armada deixa Melinde com destino às Índias. Baco desce ao findo do mar e pede aos deuses que liberem os ventos contra a frota portuguesa (est.27-34).
Ocorre uma tempestade, abrandada com a chegada de Vênus e as Ninfas, que seduzem os ventos (est.85-89). Chegada às Índias.
CANTO VII
Narram-se o desembarque em Calecute e os primeiros contatos com os mouros (est.44).
CANTO VIII
Os portugueses enfrentam novos problemas com os mouros. Alguns advinhos dizem que os lusitanos vinham para escravizar os indianos. Baco aparece em sonho a um sacerdote muçulmano, inspirando-lhe sentimentos anticristãos (est.46-51).
CANTO IX
Conseguindo superar as dificuldades, Vasco da Gama apressa a partida. A Flor de Banda (noz moscada) é apreciada pelos lusos (est.14).
Inicia-se a viagem de volta, interrompida por uma parada na Ilha dos Amores (est.64-95), local onde Vênus e Cupido preparam uma recepção aos portugueses, para compensar-lhes as aflições da viagem.
Enquanto Vaso da Gama ama a deusa Tétis, os marinheiros divertem-se com as ninfas.
CANTO X
Tétis oferece um banquete aos navegantes. Depois, conduz Vasco da Gama ao alto de um monte e descreve-lhe “a máquina do mundo”, um globo transparente que representava o funcionamento do universo (est.76-142).
Partida da ilha e regresso a Lisboa.
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Ainda não era tudo para Camões. D.Sebastião negou-lhe audiência levando a escrever aqueles versos remate dos Lusíadas:
“No’mais, Musa, no’mais, que a lyra tenho
Destemperada e a voz enrouquecida
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais accende o engenho,
Não nos dá a pátria, não, que esta metida
No gosto da cobiça e na rudeza
De uma austera, apagada e vil tristeza”.
Dá-se a derrota de D.Sebastião na África. Vem a peste e a fome. A pátria é absorvida pela Espanha. Camões morre em um hospital, escrevendo pouco antes a D.Fernando de Almeida:
“E assi acabarei a vida, e verão todos que fui affeiçoado a minha pátria, que não somente me contentei de morrer nella, mas de morrer com ella”.
Passo 3 - Uma das principais iniciativas da cultura erudita européia a partir do Renascimento, como sabemos, foi retomar e transformar a arte e o pensamento greco-latinos. No soneto “Transforma-se o amador na cousa amada”, de Camões, por exemplo, nota-se tal movimento ocorrendo na adaptação do amor platônico, já filtrado pela revisão petrarquista, para a tradição da lírica em Língua Portuguesa.
Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co'a alma minha se conforma,
Está no pensamento como ideia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.
Para conhecer mais sobre essa característica clássica da lírica camoniana,
leia o breve artigo Amor e Neoplatonismo em Camões, de Fábio Della Paschoa
Rodrigues:
Acessado em 06 de dezembro de 2009. Encontre e comente no poema os
elementos supostamente importados e transformados de Platão.
O Neoplatonismo ou a revivência das doutrinas de Platão acerca do AMOR, reside no mundo das idéias, e o mundo sensível se afigura apenas em um aglomerado de sombras vagas, onde “o Amor é um ser intermediário entre os deuses e os mortais, e filósofo; ele nos inspira o desejo de ter sempre o bem; sua ação é uma geração que garante aos mortais a imortalidade que lhes é possível” (José Cavalcante de Sousa, “Introdução” a O Banquete, São Paulo, Difusão Européia do Livro, 1966, p.54).
O poeta contempla a amada transubstanciada em IDEIA, da doutrina platônica e em FORMA, conforme a doutrina aristotélica, ambas colidindo coma a concepção do real. No poema, os dois conceitos contemplam-se ao invés de repelir-se: pelo pensamento o apaixonado (“o amador”) se transforma “na cousa amada”, realizando assim a filosofia aristotélica. Mas a “cousa amada”, composta ao mesmo tempo de corpo e espírito (“linda e pura semideia”) e ajustada à alma do poeta (“com a alma minha se4 conforma”) da mesma maneira que o “acidente” (ou o adjetivo) adere intimamente ao “sujeito” (ou o substantivo), “está no pensamento como idéia”, isto é a IDÉIA do Amor e da Amada, jamais o Amor e a Amada CORPORIFICADOS (teoria platônica).
Por isso, o amor de um modo análogo (“o vivo e puro amor de que sou feito”), àquele em que a substância pura implica obrigatoriamente uma forma conforme o conceito aristotélico da “matéria” (“matéria simples busca a forma”).
Passo 4 - Comente a maneira lógica com que Camões consegue conduzir o assunto amoroso, estratégia discursiva bastante típica da forma-fixa soneto.
Apesar de Camões obedecer ao princípio da imitação (modelos pré-existentes), ele é racionalista, não abandonando o fluxo emocional ou sentimental em seus sonetos líricos-amorosos. Controlado, o poeta guia-se pela razão, repelindo os extravasamentos desnecessários, mantendo-se nos limites do equilíbrio e harmonia, que constituem-se em outras características da estética clássica evidentes nos sonetos.
O equilíbrio e a harmonia conduz à impressão de absoluto e universalidade, na qual o poeta atenua o seu “eu”, de sua vida subjetiva particular, em favor de uma visão impessoal, que pressupõe absolutos de beleza, de bem e de verdade.
Por isso, interessa-lhe mais a Mulher que a mulher, mais o Amor que o amor (um em reflexo do outro). O poeta procura comunicar-nos antes um PENSAMENTO acerca do Amor e da Mulher, que um SENTIMENTO deles, ou seja, o neoplatonismo.
Bibliografia:
MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa através dos textos. 31.ª ed. São Paulo: Cultrix, 2009.
MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa. 36.ª ed. São Paulo: Cultrix, 2008.
MOURA, Francisco Marto e FARACO, Carlos Emílio. Língua e Literatura. Vol.1-2.º Grau.São Paulo. Ed.Ática. 19.ª ed.1999.
CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. Comentados pelo Prof.Otoniel Mota, Editora Melhoramento.14.ª Edição. 1962.
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