A construção de uma história da literatura. Literatura de Informação: Caminha. Anchieta. Gândavo Numa de suas obras mais fundamentais, A Dialética da Colonização (São Paulo: Companhia das Letras, 2000), no capítulo inicial intitulado “Colônia, culto e cultura”, o crítico Alfredo Bosi analisa a condição colonial brasileira partindo de um estudo de cunho etimológico, em que pensa, relativamente à dita condição, os alcances semânticos para a cultura romana dos termos latinos Colo-Cultus-Cultura.
Passo 1 - Alfredo Bosi, assim, entende a ação colonizadora de Portugal como um gesto de reinstauração e dialetização das ordens do cultivo, do culto e da cultura. Explique, com suas palavras, qual é a contradição, apontada por Bosi, nesse processo colonizador.
A partir do fenômeno nativista, que por ser um complemento necessário de todo complexo colonial resultar num lento processo de aculturação do português e do negro, ambos estrangeiros, e as raças nativas, definiram os dois elementos responsáveis pela ocupação produtiva do país:
1. a extração do pau-brasil, único produto nosso que interessava aos europeus;
2. a exploração da mão-de-obra indígena, que pouco a pouco, teve sua cultura suplantada pela visão do mundo dos jesuítas, marcada ainda pela religiosidade medieval.
Passo 2 - A partir da leitura d’A Carta a El Rei D. Manuel, de Pero Vaz de Caminha (1450-1500), aponte alguns elementos dela evidentes que viriam a contribuir para o estabelecimento do imaginário fundante de uma nacionalidade brasileira, elementos estes que foram recuperados direta ou indiretamente por manifestações literárias brasileiras posteriores, notadamente pelos escritores dos períodos românticos e modernistas. Para a leitura da carta, consulte o site do Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Linguística da Universidade Federal de Santa Catarina:
Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos, e suas setas.
E um deles lhe arremessou um sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas, como de papagaio. E outro lhe deu um ramal grande de continhas brancas, miúdas que querem parecer de aljôfar, as quais peças creio que o Capitão manda a Vossa Alteza.
E tomou dois daqueles homens da terra que estavam numa almadia: mancebos e de bons corpos. Um deles trazia um arco, e seis ou sete setas. E na praia andavam muitos com seus arcos e setas; mas não os aproveitou. Logo, já de noite, levou-os à Capitaina, onde foram recebidos com muito prazer e festa.
A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixa de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência. Ambos traziam o beiço de baixo furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, agudo na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita a modo de roque de xadrez. E trazem-no ali encaixado de sorte que não os magoa, nem lhes põe estorvo no falar, nem no comer e beber.
Os cabelos deles são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta antes do que sobre-pente, de boa grandeza, rapados todavia por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte, na parte detrás, uma espécie de cabeleira, de penas de ave amarela, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena por pena, com uma confeição branda como, de maneira tal que a cabeleira era mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar.
Viu um deles umas contas de rosário, brancas; fez sinal que lhas dessem, e folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço; e depois tirou-as e meteu-as em volta do braço, e acenava para a terra e novamente para as contas e para o colar do Capitão, como se dariam ouro por aquilo.
E alguns, que andavam sem eles, traziam os beiços furados e nos buracos traziam uns espelhos de pau, que pareciam espelhos de borracha. E alguns deles traziam três daqueles bicos, a saber um no meio, e os dois nos cabos.
E andavam lá outros, quartejados de cores, a saber metade deles da sua própria cor, e metade de tintura preta, um tanto azulada; e outros quartejados d'escaques.
Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem novinhas e gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas costas; e suas vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as nós muito bem olharmos, não se envergonhavam.
Outros traziam carapuças de penas amarelas; e outros, de vermelhas; e outros de verdes. E uma daquelas moças era toda tingida de baixo a cima, daquela tintura e certo era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha tão graciosa que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições envergonhara, por não terem as suas como ela. Nenhum deles era fanado, mas todos assim como nós.
Ali veríeis galantes, pintados de preto e vermelho, e quartejados, assim pelos corpos como pelas pernas, que, certo, assim pareciam bem. Também andavam entre eles quatro ou cinco mulheres, novas, que assim nuas, não pareciam mal. Entre elas andava uma, com uma coxa, do joelho até o quadril e a nádega, toda tingida daquela tintura preta; e todo o resto da sua cor natural. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas, e também os colos dos pés; e suas vergonhas tão nuas, e com tanta inocência assim descobertas, que não havia nisso desvergonha nenhuma.
Também andava lá outra mulher, nova, com um menino ou menina, atado com um pano aos peitos, de modo que não se lhe viam senão as perninhas. Mas nas pernas da mãe, e no resto, não havia pano algum.
E além do rio andavam muitos deles dançando e folgando, uns diante os outros, sem se tomarem pelas mãos. E faziam-no bem. Passou-se então para a outra banda do rio Diogo Dias, que fora almoxarife de Sacavém, o qual é homem gracioso e de prazer. E levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se a dançar com eles, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem fez ali muitas voltas ligeiras, andando no chão, e salto real, de que se eles espantavam e riam e folgavam muito. E conquanto com aquilo os segurou e afagou muito, tomavam logo uma esquiveza como de animais montezes, e foram-se para cima.
E segundo diziam esses que lá tinham ido, brincaram com eles. Neste dia os vimos mais de perto e mais à nossa vontade, por andarmos quase todos misturados: uns andavam quartejados daquelas tinturas, outros de metades, outros de tanta feição como em pano de ras, e todos com os beiços furados, muitos com os ossos neles, e bastantes sem ossos. Alguns traziam uns ouriços verdes, de árvores, que na cor queriam parecer de castanheiras, embora fossem muito mais pequenos. E estavam cheios de uns grãos vermelhos, pequeninos que, esmagando-se entre os dedos, se desfaziam na tinta muito vermelha de que andavam tingidos. E quanto mais se molhavam, tanto mais vermelhos ficavam.
Todos andam rapados até por cima das orelhas; assim mesmo de sobrancelhas e pestanas.
Trazem todos as testas, de fonte a fonte, tintas de tintura preta, que parece uma fita preta da largura de dois dedos.
Entre todos estes que hoje vieram não veio mais que uma mulher, moça, a qual esteve sempre à missa, à qual deram um pano com que se cobrisse; e puseram-lho em volta dela. Todavia, ao sentar-se, não se lembrava de o estender muito para se cobrir. Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria maior -- com respeito ao pudor.
Passo 3 - Comente quais são as duas principais vertentes da produção literária de José de Anchieta (1534-1597), explicando, sucintamente, pelo menos uma obra de cada uma das vertentes. Diga por que essa bipartição é expressiva para compreendermos as condições dessa literatura colonial. Para ler algumas das obras do autor, consulte:
Como literatura de informação ou literatura dos cronistas e viajantes, estes textos em sua grande maioria, relacionam-se mais à crônica histórica que ao gênero literário propriamente dito.
Por outro lado, como país-colônia, registra-se a ocorrência da prosa, poesia e teatro, com a finalidade catequizadora, numa visão teocêntrica do mundo, o que em ambos os estilos Pe. José de Anchieta deixou-nos algumas obras:
- Como cartas e relatórios de valor documental:
“Arte da Gramática da Língua Mais Usada na Costa do Brasil” (1595);
“Cartas, informações, fragmentos históricos e sermões” (1554/1594 – public.1933).
- Como poeta e dramaturgo:
“De Beata Virgine Dei Matre Maria (longo poema, em latim, em louvor à Virgem Maria);
“Poemas” (em português, espanhol, latim e tupi);
- Teatro: São conhecidos oito autos. O mais importante é “Na Festa de São Lourenço”, misturando três línguas – o tupi, o português e o espanhol – para contar o martírio de São Lourenço, que preferiu morrer queimado a renunciar a fé cristã.
Bibliografia
MOURA, Francisco Marto e FARACO, Carlos Emílio. "Língua e Literatura.vol.1/2.º Grau", Ed.Ática, 19.ªed.1999.
AMARAL, Emília."Novas palavras: língua portuguesa:ensino médio" 2.ªed renov.São Paulo-FTD.2005.
MOISÉS, Massaud. A literatura brasileira através dos textos. 27.ª ed. São Paulo: Cultrix, 2007.
BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. 44.ª Ed. – São Paulo: Cultrix, 2007.
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