terça-feira, 9 de março de 2010

Passo 1- Descreva sucintamente a história de Inês de Castro e do infante D. Pedro e diga a quais momentos específicos do episódio referem-se os capítulos XLIV e XXVII da crônica de D. Pedro I.

“Filho de Afonso IV, D.Pedro I reinou entre 1357 e 1367. Aos vinte anos, casou-se com D. Constança, filha do Infante João Manuel, regente de Castela. Entre as damas de companhia contava-se Inês de Castro, filha do fidalgo galego Pedro Fernandes de Castro, da qual D.Pedro logo se apaixonou. Mas seu pai, que então reinava, interpôs-se. Com o falecimento da esposa em 1345, os enamorados passaram a entreter-se livremente. Todavia, o rei se deixa convencer por seus conselheiros a permitir o assassínio de Inês, em 7 de janeiro de 1355. Enfurecido de dor e de indignação, D.Pedro, quando já erguido ao trono, conseguindo aprisionar os matadores de Inês, ordenou que morressem com tal sadismo que acabou recebendo os epítetos de “O Cruel” e “O Justiceiro”. Torturado por sua ausência, passava noites saindo às ruas para dançar e confraternizar com o povo.”
Na obra historiográfica de Fernão Lopes, Guarda-Mor da Torre do Tombo (1418 – 1459), ao contrabalançar o regiocentrismo colocando o povo ao lado do monarca, o cronista revela a face política e psicológica de D. Pedro, tratando-o como um homem atormentado por sua dor, por suas manifestações imprevistas e descontroladas.

Passo 2 - Garcia de Resende (1470-1536), o compilador das poesias palacianas contidas no Cancioneiro Geral, é quem inicia, na Literatura Portuguesa, o tratamento poético do episódio acima referido, com o poema Trovas À Morte de D. Inês de Castro. Os versos retratam o caso de maneira particularizada, por um lado dando relevância a certa irresponsabilidade do par amoroso, por outro, livrando a culpa de D. Afonso IV, pai de D. Pedro. Explique, utilizando elementos do poema, como podemos chegar a tal conclusão.

A simpatia do poeta português está em sua psique, na sua alma sentimental e emotiva, daí a gabar-se do amor-sofrimento, da súplica mortal, que ainda é o ponto alto do Cancioneiro Geral, dando continuidade à tendência do lirismo trovadoresco, fazendo com que a mulher encarna-se, tornando-a verdadeira em graças físicas e sensoriais.
É deste modo que o cronista ao revela as fraquezas e vicissitudes dos personagens históricos, relatados na “voz” de D.Inês.
No que se refere a irresponsabilidade do casal,:
“...Conheceu-me, conheci-o...”
“...Dei-lhe minha liberdade,
não senti perda de fama;...”
“...Por m’estas obras pagar
nunca jamais quis casar;...”
“...E quereis abarregado,
com filhos, como casado,
estê, Senhor, vosso filho?...”
“...O príncipe casará,
filhos de bênção terá,
será fora do pecado;...”

No que se refere o livramento do assassínio de D.Inês:
“...Com sua morte escusaresi,
muitas mortes, muitos danos,
vós, Senhor, descansareis,
e a vós e a nós darei
paz para duzentos anos...”
E, tal qual Pilatos: “minha tenção me desculpa/ se o vós quereis fazer,/ fazei-o sem o dizer,/ qu’ eu nisso não mando nada,/ nem vejo essa coitada/ por que deva morrer...”
“Este é o galardão que meus amores me deram!”

Passo 3 - A obra de Gil Vicente está justamente no entroncamento entre o período histórico concernente ao final da Idade Média e ao que se costuma denominar de Renascimento. Demonstre quais são as principais características que podem aproximar as duas obras de Gil Vicente mencionadas a seguir no que concerne ao fato de serem representativas do período renascentista:

a) Auto da Barca do Inferno;

Suas características:

O Estilo: obra escrita em versos heptassílabos, em tom coloquial e com intenção marcadamente doutrinária, fundindo em algumas passagens o português, o latim e o espanhol. Cada personagem apresenta, através da fala, traços que denunciam sua condição social.

A Estrutura: peça teatral em um único ato, subdividido em cenas marcadas pelos diálogos que o Anjo ou o Diabo travam com os personagens.

O Cenário: um ancoradouro, no qual estão atracadas duas barcas. Todos os mortos, necessariamente, têm de passar por esta paragem, sendo julgados e condenados ou à barca da Glória ou à barca do Inferno.

Os Personagens:

Diabo: condutor das almas ao Inferno, conhece muito bem cada um dos personagens que lhe cai às mãos; é zombeteiro, irônico e bom argumentador. Gil Vicente não pinta o Diabo com responsável pelos fracassos e males humanos; o Diabo é um juiz, que exibe às claras o lado mais recôndito dos personagens, penetrando nas consciências humanas e revelando o que cada um deles procura esconder.

Fidalgo: representante da nobreza. Chega com um pajem, roupas solenes e uma cadeira. É condenado por sua vida pecaminosa, em que a luxúria, a tirania e a falta de modéstia pesam como graves defeitos. A figura do Fidalgo, orgulhoso e arrogante, permite a crítica vicentina à nobreza.

Onzeneiro: usurário que alega ter deixado suas posses em terra; querendo buscá-las, revela seu apego às coisas mundanas. O Diabo não que ele volte à terra para reaver suas riquezas, condenando-o ao fogo do Inferno.

Parvo: simplório, sem malícia, ele escapa ao Inferno, driblando o Diabo. É uma alma pura, cujos valores são legítimos e sinceros, o que o conduz ao Paraíso. Em várias passagens da peça, o Parvo ironiza a pretensão de outros personagens, que se querem passar por “inocentes” diante do Diabo.

Sapateiro: representante dos mestres de ofício, é um desonesto explorador do povo. Chega com todos os aparatos de sua profissão e, habituado a ludibriar os homens, procura enganar o Diabo, que o condena.

Frade: é acompanhado de uma amante. Ele é alegre, risonho, cantante, mas mau-caráter. Crê-se inocente por ser membro da Igreja, por haver rezado e estar à serviço da fé. Ele dá uma lição de esgrima ao Diabo (que finge não saber manejar uma arma), o que prova a culpa do espadachim, já que frades não lidam com armas. A crítica vicentina ao clero é incisiva: os homens da fé não sabem ser pacíficos, verdadeiros e bons.

Brísida Vaz: agenciadora de meretrizes e feiticeira. Ela é conhecida de outros personagens, que utilizaram em vida seus serviços. Inescrupulosa, traiçoeira, cheia de ardis, não consegue fugir à condenação.

Judeu: acompanha-o um bode. Não obedece à doutrina cristã e é detestado por todos, inclusive pelo próprio Diabo. É oportuno ressaltar que, durante o reinado de D. Manuel (época em que viveu o autor), houve uma grande perseguição aos judeus, com o propósito de expulsá-los de Portugal.

Corregedor e Procurador: juiz e advogado: personagens condenados pela imoralidade. Eles faziam da lei uma fonte de ganhos ilícitos e de manipulação de sentenças, dadas conforme as propinas recebidas. A índole moralizadora do teatro vicentino fica bastante patente com mais essa condenação, envolvendo a justiça humana, na figura dos representantes do Direito.

Enforcado: acredita que a morte na forca o redime de seus pecados, equivalendo a um perdão; tal não ocorre e ele é condenado.
Cavaleiros cruzados: como lutaram contra os mouros em prol do triunfo da fé, são conduzidos à barca da Glória.

A peça se caracteriza como um auto, que é uma designação genérica para peças cuja finalidade é tanto para divertir quanto instruir. Os temas podem ser religiosos ou profanos, sérios ou cômicos, devendo no entanto, guardar um profundo sentido moralizador.

b) Farsa de Inês Pereira.

Estrutura da obra

A Farsa de Inês Pereira é composta de três partes:

1. Inês fantasiosa - mostra Inês, seus desejos e ambições, e o momento em que é apresentada pela alcoviteira a Pero Marques. Essa parte retrata o cotidiano da protagonista e a situação da mulher na sociedade da época, por meio das falas de Inês, da mãe e da alcoviteira Lianor Vaz.

2. Inês mal-maridada - mostra as agruras do primeiro casamento de Inês. Nessa parte, o autor aborda o comércio casamenteiro, por meio das figuras dos judeus comerciantes e do arranjo matrimonial-mercantil, e o despertar de Inês para a realidade, abandonando as fantasias alimentadas até então.

3. Inês quite e desforrada - a protagonista casa-se pela segunda vez e trai o marido com um antigo admirador. Experiente e vivida, aqui Inês tira todo o proveito possível da situação que vive.
Personagens

Inês Pereira: jovem esperta que se aborrece com o trabalho doméstico. Deseja ter liberdade e se divertir. Sonha casar-se com um marido que queira também aproveitar a vida. Principal personagem da peça. Moça bonita, solteira, pequena-burguesa. Seu cotidiano é enfadonho: passa os dias bordando, fiando, costurando. Sonha casar-se, vendo no casamento uma libertação dos trabalhos domésticos. Despreza o casamento com um homem simples, preferindo um marido de comportamento refinado. Idealiza-o como um fino cavalheiro que soubesse cantar e dançar. Contraria as recomendações maternas rejeitando Pero Marques e casando-se com Brás da Mata, frustra-se com a experiência e aprende que a vida pode ser boa ao lado de um humilde camponês.

Inês deixa-se levar pelas aparências e ridiculariza Pero Marques despedindo-o de sua casa para receber Brás da Mata. Casa-se com ele, mas sua vida torna-se uma prisão, ela não pode sair e é constantemente vigiada por um moço. Inês sofre e chega a desejar a morte do marido.

Ele morre covardemente na guerra e Inês casa-se com Pero Marques. Ele satisfaz todos os seus desejos e chega até a carregá-la nas costas para um encontro com um amante (sem saber, porém, que era para isso).

Mãe de Inês: mulher de boa condição econômica, que sonha casar Inês com um homem de posses. É a típica dona de casa pequeno-burguesa e provinciana. Preocupada com a educação e o futuro da filha em idade de casar. Dá conselhos prudentes, inspirada por uma sabedoria popular imemorial. Chega a ser comovente em sua singela ternura pela filha, a quem presenteia com uma casa por ocasião das núpcias.

Leonor Vaz: fofoqueira, encarregava-se normalmente em arranjar casamentos e encontros amorosos. É o estereótipo da comadre casamenteira que sabe seu ofício e dele se desincumbe com desenvoltura. Sabe valorizar seu produto com argumentos práticos de quem tem a experiência e o senso das coisas da vida.

Pero Marques: primeiro pretendente de Inês rejeitado por ser grosseiro e simplório, apesar da boa condição financeira. Foi seu segundo marido. Camponês simples, não conhece os costumes das pessoas da cidade. É uma personagem ambígua, ao mesmo tempo em que é ridicularizado pela ingenuidade, é valorizado pela integridade de caráter. Fiel e dedicado, revela se um gentil e carinhoso marido.

É tão simples que não sabe para que serve uma cadeira. É teimoso como um asno e diz que não se casará até que Inês o aceite um dia.

Latão e Vidal: judeus casamenteiros, assim como Leonor. Os judeus casamenteiros são muito parecidos, têm as mesmas características, na verdade são o mesmo repartido em dois. São a caricatura do judeu hábil no comércio. Faladores, insinuantes, humildes, serviçais e maliciosos, são o estereótipo de que a literatura às vezes se serviu, como, por exemplo, no caso desta peça de Gil Vicente.

Brás da Mata: escudeiro, índole má, primeiro marido de Inês. Interesseiro e dissimulado é a representação da esperteza das classes superiores. É um nobre empobrecido que não perde o orgulho e pretende aproveitar-se economicamente de Inês através do dote. Brás da Mata é um escudeiro, isto é, homem das armas que auxiliava os cavaleiros fidalgos. Na mudança do feudalismo para o capitalismo, a maioria permaneceu numa condição subalterna, procurando imitar a aristocracia.

Moço: criado de Brás. Pobre coitado, explorado por um amo infame. Humilde, deixa-se explorar e acredita ingenuamente nas promessas do Escudeiro. Cumpre sua obrigação sem ver recompensa, mas é capaz de, em suas queixas, insinuar as farpas com que cutuca o mau patrão.

Ermitão: antigo pretendente de Inês e amante depois de seu casamento com Pero. É um falso monge que veste o hábito para conseguir realizar seu propósito de possuir Inês.

Fernando e Luzia: amigos e vizinhos da mãe de Inês.

Enredo

A peça tem início com a entrada de Inês Pereira cantando e fingindo que trabalha em um bordado. Logo começa a reclamar do tédio deste serviço e da vida que leva sempre fechada em casa. A mãe, ouvindo suas reclamações, aconselha-a a ter paciência. Inês é uma jovem solteira que sofre a pressão constante do casamento. Imagina Inês casar-se com um homem que ao mesmo tempo seja alegre, bem-humorado, galante e que goste de dançar e cantar, o que já se percebe na primeira conversa que estabelece com sua mãe e Leonor Vaz. Essas duas têm uma visão mais prática do matrimônio: o que importa é que o marido cumpra suas obrigações financeiras, enquanto que Inês está apenas preocupada com o lado prazeroso, cortesão.

Lianor Vaz aproxima-se contando que um padre a assediou no caminho. Depois de contar suas aventuras, diz que veio trazer uma proposta de casamento para Inês e lhe entrega uma carta de seu pretendente, Pero Marques, filho de lavrador rico, o que satisfazia a idéia de marido na visão de sua mãe. Inês aceita conhecê-lo apesar de não ter se interessado pela carta. Pessoalmente, acha Pero ainda mais desinteressante ainda e recusa o casamento. Sua esperança agora está nos Judeus casamenteiros a quem encomendou o noivo de seus sonhos.

Aceita então a proposta de dois judeus casamenteiros divertidíssimos, Latão e Vidal, que somente se interessam no dinheiro que o casamento arranjado pode lhes render, não dando importância ao bem-estar da moça. Então lhe apresentam Brás da Mata, um escudeiro, que se mostra exatamente do jeito que Inês esperava, apesar das desconfianças de sua mãe. Antes de vir conhecê-la, porém, o tal Escudeiro, na verdade, pretensioso e falido, combina com seu mal-humorado pajem as mentiras que dirá para enganar Inês.

O plano dá certo e eles se casam. No entanto, consumado o casamento, Brás, seu marido, mostra ser tirano, proibindo-a de tudo, até de ir à janela. Chegava a pregar as janelas para que Inês não olhasse para a rua. Proibia Inês de cantar dentro de casa, pois queria uma mulher obediente e discreta.

Encarcerada em sua própria casa, Inês encontra sua desgraça. Mas a desventura dura pouco, pois Brás torna-se cavaleiro e é chamado para a guerra, onde morre nas mãos de um mouro quando fugia de forma covarde.

Finalmente em liberdade, a moça não perde tempo. Viúva e mais experiente, fingindo tristeza pela morte do marido tirano, Inês aceita casar-se com Pero Marques, seu antigo pretendente. Aproveitando-se da ingenuidade de Pero, o trai descaradamente quando é procurada por um ermitão que tinha sido um antigo apaixonado seu. Marcam um encontro na ermida e Inês exige que Pero, seu marido, a leve ao encontro do ermitão. Ele obedece colocando-a montada em suas costas e levando Inês ao encontro do amante.
Uma vez que as personagens falam diretamente, Gil Vicente, muito habilmente, soube usar essa artimanha para garantir o humor. Na fala de cada uma encontramos marcas importantes na delimitação de suas características: a ingenuidade de Pero Marques, o descaso e a argúcia de Inês, a malandragem do Escudeiro e daí em diante.

Gil Vicente seguiu a Medida Velha, característica da poesia medieval. Todas as falas foram compostas em verso redondilhos maiores, isto é, com sete sílabas poéticas, e sempre rimadas.
Consuma-se assim o tema, que era um ditado popular de que “é melhor um asno que nos carregue do que um cavalo que nos derrube”.

Referências:
MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa através dos textos. 22 ed.São Paulo: Cultrix, 1997;
http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/a/a_farsa_de_ines_pereira;
http://www.micropic.com.br/noronha/resumo21.htm.

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