Passo 1 - Leia as duas cantigas abaixo, representativas do cancioneiro primitivo galego-português:
a) identifique qual o tipo de cada cantiga (de amigo ou de amor) e o ciclo cronológico a que pertencem;
b) indique o sistema de rimas e identifique o refrão;
c) para a cantiga de amigo indique a classificação temática usando elementos do texto, para a cantiga de amor identifique e explique como acontece a expressão do “amor cortês”;
d) faça uma síntese de cada cantiga.
A
Mià irmãa fremosa, | treides comigo
Mià irmãa fremosa, | treides comigo
a-la igreja, u é | o mar salido
e miraremo-las ondas.
Mià irmãa fremosa, | treides de grado
a-la igreja, u é | o mar levado,
e miraremo-las ondas.
A-la-igreja, u é | o mar salido,
e verrá i, mià madre, | o meu amigo,
e miraremo-las ondas.
A-la igreja, u é | o mar levado,
e verrá i, mià madre, | o meu amado,
e miraremo-las ondas.
Martin Codax (Século XIII)
Conclusão
MARTIN CODAX, trovador da época de Afonso III, em meados do século XIII, legou 7 cantigas de amigo, sendo que seis ainda constituíam a pauta musical.
Em “Mià irmãa fremosa, treides comigo”, contêm a confissão amorosa duma cantiga de romaria, onde transcorrem as lamúrias de uma moça por um marinheiro “u é o mar levado”.
Utiliza-se no processo de composição poética o sistema de refrão leixa-pren “deixa-prende”, que utiliza o sinônimo equivalente ou alternância dos últimos vocábulos.
B
Cantiga de Guarvaia
Como morreu quen nunca bem
ouve da ren que mais amou,
e quen viu quanto receou
d’ela, e foi morto por én:
Ay mia senhor, assi moir’eu!
Como morreu quem foi amar
quen lhe nunca quis bem fazer,
e de que(n) lhe fez Deus veer
de que foi morto con pesar:
Ay mia senhor, assi moir’eu!
Com’ome que ensandeceu,
senhor, com gran pesar que viu,
e non foi ledo nem dormiu
depois, mia senhor, e morreu:
Ay mia senhor, assi moir’eu!
Como morreu quen amou tal
dona que lhe nunca fez ben,
e quen a viu levar a quen
a non valia, nen a val:
Ay, mia senhor, assi moir’eu!
Paio Soares de Taveirós (Século XII-XIII)
Conclusão
Nos idos de 1904, Afonso VI, Rei de Leão, um dos reinos da Península Ibérica (Castela, Aragão e Navarra) casa suas duas filhas: Urraca com o conde Raimundo de Borgonha, doando à estes a Galiza e, Teresa com Dom Henrique que lhe coube o território entre o rio Minho e o Tejo, com o nome de “Condado Portucalense”.
Após a morte de Dom Henrique (1112 ou 1114), Dona Teresa passa a governar, estreitando relações com os galegos. Porém, seu filho, o infante Afonso Henriques, rebela-se contra a mãe, o que culmina em 24 de junho de 1128 a batalha de São Mamede e mesmo ferido, sai vitorioso.
Mas é somente em 1143, na Conferência de Samora, que Afonso VII reconhece Afonso Henriques como rei, tornando assim o país autônomo.
A data que se utiliza para marcar o início literário em Portugal é a de 1198 (ou 1189), quando Paio Soares de Taveirós compõe a “Cantiga da Garvaia” ou “A Ribeirinha”, endereçada a Maria Pais Ribeiro, favorita de Dom Sancho I.
Oscilando entre amor e escárnio, a arte do poeta já se mostra avançada, pois, “sob o manto da reverência imposta por sua condição de cavalheiro em serviço-amoroso de uma dama, suas setas estão embebidas em sarcasmo ou despeito...Portanto, parece que o trovador, havendo sido beneficiado com os favores da dama, padece por se recordar do bem recebido e do mal que lhe ficou na lembrança”.
Já nos primeiros versos, trata-se de uma cantiga de amor, mas ao tornar-se indiscreto ao revelar que a dama se lhe mostrara “in saia”, e a alusão a “guarvaia”, o trovador se permite ao desrespeito, próximo à ironia, não se caracterizando régio às normas do amor cortês.
Utiliza-se no processo de composição poética o sistema muito típico da poesia popular, o paralelismo ou cantiga paralelística (cossoante), onde a primeira cobra recorre com alterações formais que não de sentido nas cobras seguintes.
Passo 2 - Leia a cantiga de amigo abaixo e explique porque podemos dizer que há aí um sistema que é chamado de paralelismo:
Vaiamos, irmãa, vaiamos dormir
Vaiamos, irmãa, vaiamos dormir
[en] nas ribas do lago, u eu andar vi
a las aves meu amigo.
Vaiamos, irmãa, vaiamos folgar
[en] nas ribas do lago, u eu vi andar
a las aves meu amigo.
En nas ribas do lago, u eu andar vi,
seu arco na mãao as aves ferir,
a las aves meu amigo.
En nas ribas do lago, u eu vi andar,
seu arco na mãao a las aves tirar,
a las aves meu amigo.
Seu arco na mãao as aves ferir,
a las que cantavam leixa-las guarir,
a las aves meu amigo.
Seu arco na mãao as aves tirar,
a las que cantavam non nas quer matar,
a las aves meu amigo.
FERNANDO ESGUIO (século XIII-XIV)
Vocabulário: leixa: deixa, guarir: viver, ribas: margens, folgar: descansar
Conclusão
Trata-se neste processo de composição poética, o sistema do paralelismo ou cantiga paralelística (cossoante), onde o trovador persiste em expressar somente com as mesmas palavras ou equivalentes nas estrofes em par:
1.ª e 2.ª estrofes: elas descansam;
3.ª e 4.ª estrofes: ela o vê;
5.ª e 6.ª estrofes: seu amado não mata as aves que cantam.
Mas também é de cantiga de refrão: “a las aves meu amigo”.
Passo 3 - Na cantiga de amor abaixo, D. Dinis discute o problema da expressão do amor nas poesias provençais, sugerindo certa falta de sinceridade. Usando os elementos da própria cantiga, diga por que podemos chegar a tal conclusão.
Proençaes soen mui ben trobar
Proençaes soen mui bem trobar
e dizen eles que é con amor,
mais os que troban no tempo da flor
e non en outro sei eu bem que non
an tan gran coita no seu coraçon
qual m’eu por mia senhor veja levar.
Pero que troban e sabem loar
sas senhores o mais e o melhor
que eles podem, soo sabedor
que os que troban, quand’a frol sazon
á e non ante, se Deus mi perdon,
non na tal coita qual eu ei sen par.
Ca os que troban e que s’alegrar
van eno tempo que tem a color
a frol consigu’e, tanto que se for
aquel tempo, logu’en trobar razon
non an, non viven [en] qual perdiçon
oj’eu vivo, que pois m’á de matar.
D. DINIS (1261-1325)
Vocabulário: loar: louvar, frol: flor, sazon: estação do ano, ante: em frente, ca: pois, color: cor, oj’eu vivo: hoje eu vivo.
Conclusão
Trata-se nesta cantiga de amor a questão de como os provençais sem valia “sentem” o amor em suas composições poéticas, ao que Dom Dinis, sugerindo certa falta de sinceridade, pois ele não precisa de “tempo da flor”, “frol sazon” para inspirar-se nas contendas amorosas, basta-lhe o próprio dom de poeta.
Passo 4 - Explique, usando elementos do texto, porque podemos dizer que a cantiga abaixo é uma paródia à teoria do amor cortês e às suas exigências:
Ai, dona fea, fostes-vos queixar
Ai, dona fea, fostes-vos queixar
que vos nunca louv[o] en meu cantar;
mais ora quero fazer un cantar
en que vos loarei toda via;
e vedes como vos quero loar:
dona fea, velha e sandia!
Dona fea, se Deus mi pardon,
pois avedes [a] tan gran coraçon
que vos eu loe, en esta razon
vos quero já loar toda via;
e vedes qual será a loaçon:
dona fea, velha e sandia!
Dona fea, nunca vos eu loei
en meu trobar, pero muito trobei;
mais ora já un bom cantar farei,
en que vos loarei toda via;
e direi-vos como vos loarei:
dona fea, velha e sandia!
JOAN GARCIA DE GUILHADE
Vocabulário: fea: feia, sandia: doida, loar: luvar, loaçon: louvação.
Conclusão
O trovador ao compor o estribilho “dona fea, velha e sandia”, retrata uma situação social velha dama que anseia pelo amor de um jovem, e numa crítica direta e virulenta, apresenta seu mal-estar ao ser obrigado “loar”.
Passo 5 - Tendo em vista o fato de o “amor cortês” caracterizar-se justamente pela impossibilidade de união real entre os dois amantes, diga em que consiste a “falta” que define as relações amorosas das novelas de cavalaria. Explique isso exemplificando com a história de Tristão e Isolda. (BÉDIER, Joseph. O romance de Tristão e Isolda. São Paulo: Martins Fontes, 2001)
Resumo da Obra:
O Romance de Tristão e Isolda
Tristão, filho de Rivalen, rei de Loonois, e Blanchefleur, irmã de Marc, rei da Cornualhas. Recebeu este nome, pois sua mãe encontrava-se em profunda tristeza pela morte de seu marido. Foi educado por Rohalt, e acreditava que este era seu pai. Aprendeu com Gorvenal todas as coisas que um cavaleiro deve saber. Quando jovem, foi raptado por mercadores irlandeses, que o deixaram nas Cornualhas, onde conheceu o rei Marc, sem saber que este era seu tio e vice-versa. Depois de muito procurar Tristão, Rohalt encontra-o, e conta-lhe que seu verdadeiro pai era Rivalen e sua mãe, Blanchefleur, irmã de Marc. Voltou então a sua terra, reconquistou-a, deixando-a para Rohalt; e volta para junto do rei Marc (que já sabia que ele era seu sobrinho), levando consigo apenas Gorvenal. Para salvar Marc de uma dívida, lutou com gigante Morholt da Irlanda. Ficou ferido mortalmente, e pediu ao rei que o colocasse sozinho em um barco com sua harpa, e que o deixasse morrer em mar aberto. Foi, então, encontrado no porto de Weisefort, terra de Morholt. Sem saber, Isolda, a Loura, curou-o de seus ferimentos. Ninguém o reconheceu, pois o ferimento deformou seu rosto, e antes que fosse reconhecido, foi embora, voltando para o rei Marc. O rei não queria casar-se, para poder deixar tudo para Tristão, mas quatro barões, que não gostavam de Tristão, exigiam o casamento do rei. Então, ao pegar um fio de cabelo louro, mandou que buscassem a dona dele, e esta seria a sua esposa. Tristão, lembrando-se de Isolda, foi buscá-la. Foi a Weisefort, com cem homens, aportando lá, souberam da existência de um dragão, e quem o matasse, receberia a mão da filha do rei, Isolda, a Loura. Tristão matou a dragão, mas ficou ferido pelo seu veneno, e novamente Isolda o curou. Só que desta vez ela soube quem ele era. Mesmo assim, o rei da Irlanda, com a palavra empenhada, entregou sua filha a Tristão. Isolda fica perturbada e surpresa ao saber que seu futuro marido seria o rei Marc, e não Tristão. No caminho às Cornualhas, Tristão e Isolda tomam uma poção que os faz ficar apaixonados (tal poção fora dada pela mãe de Isolda, aos cuidados de Brangien). E, era para ser tomada por Marc e Isolda na noite de núpcias, pois quem dela tomasse, amariam-se com todos os sentidos e pensamentos, para sempre, na vida e na morte. Isolda casa-se com o rei Marc, mas na noite de núpcias, Brangien toma seu lugar. Mas, os quatro barões invejosos desconfiam dos amantes, e contam ao rei, e mesmo sem nada flagrar, o rei manda Tristão embora. Este não consegue ir e hospeda-se perto do castelo, encontrando-se as escondidas com a rainha. Os barões percebem e contam ao rei o lugar e a hora do encontro. Marc vai até lá, mas os amantes percebem a sua presença, e com palavras sábias convencem o rei do contrário. O rei faz as pazes com Tristão e deixa que ele volte ao castelo. Mesmo assim, os barões insistem no fato, e dizem ao rei que este não vê porque não quer. Com a ajuda de Frocin,o anão vidente, flagram Tristão com a rainha em seu leito. Tristão, ainda assim, jura nunca ter amado a rainha com amor culpável, mas o rei não acredita, e manda matá-los, sem julgamento. Tristão, com a ajuda de Deus, consegue fugir e Isolda é entregue aos leprosos. Mas, Tristão consegue salvá-la e a leva para morar na floresta: eram fugitivos. Ficam na floresta durante muito tempo, até que um dia, um Monteiro os encontra e vai contar ao rei. Este vai até o local e encontra os dois deitados juntos, com uma espada nua separando seus corpos (isso significa garantia e guarda de castidade), o rei tem compaixão e não os mata, mas faz com que eles saibam que ele esteve ali e os viu. Ao acordarem, percebem que tinham sido descobertos, fogem, mas ficam intrigados com a atitude do rei, e chegam a conclusão que haviam sido perdoados. Resolvem então voltar, e Tristão entrega Isolda ao rei, e este a aceita, mas manda Tristão embora, a conselho dos barões. Antes de ir, Isolda pede de lembrança o cão Husdent de Tristão e lhe dá o anel de jaspe verde, presente de Marc, o qual deveria ser mostrado a ela, caso Tristão quisesse dar-lhe algum recado.
Isolda, para provar sua inocência perante a corte, faz um teste que consistia em segurar um ferro em brasa e sair com as mãos ilesas, depois do juramento. Ela passa. Depois disto, Tristão ainda não conseguiu ir embora, e toda a noite ia até um pinheiro, perto da janela da rainha, e cantava como um rouxinol, até que ela viesse ao seu encontro. Mas os barões desconfiam e ele tem de ir embora. Vai para Gales com Gorvenal, para as terras de Gilain. Esta fazia tudo para agradá-lo, mas era em vão. Então Gilain mostrou-lhe um cão mágico, Petit-Crû, que trazia preso no pescoço um guizo mágico que espantava todas as tristezas. Tristão pensou em Isolda, e quis dar-lhe o cão de presente, e para conseguir isto matou o gigante Organ. Mandou Petit-Crû para a rainha e ela recebeu como se fosse presente de sua mãe. Realmente o cão alegrou-a, mas não achou justo somente Tristão sofrer, e jogou o guizo em alto mar.
Tristão tentava fugir de sua dor correndo o mundo. E sem receber notícias de Isolda achou que ela o tinha esquecido. Chegou na Bretanha. Recuperou as terras do duque Höel, o qual tinha um filho, Kaherdin, e uma filha, Isolda, das Brancas Mãos, a qual o duque lhe deu a mão como recompensa. Num ímpeto, Tristão aceita, mas na noite de núpcias, ao ver o anel de jaspe verde, lembra-se da outra Isolda e não consuma o casamento. Kaherdin fica sabendo do fato e toma satisfações com ele, que conta toda a sua história. Isolda, a Loura, fica sabendo do casamento e chora.
Kaherdin perdoa Tristão e vai com ele até as Cornualhas, para obterem notícias de Isolda. Lá chegando manda uma mensagem para a rainha, através de Dimas. Esta, ao ver o anel de jaspe verde, fala com Dimas, que lhe conta que mesmo casado, Tristão nunca lhe traíra. Marcam um encontro na estrada, nos espinheiros. Tristão ao ver a rainha, assobia como um pássaro, esta reconhece o canto, e marca um encontro no castelo de Saint-Lubin. Mas, eis que, um escudeiro, chamado Bleheri, vê Kaherdin e Gorvenal, e confunde Kaherdin com Tristão, por causa do escudo. Chamou-o, mas estes assustados, fogem. O escudeiro conta o fato a rainha, que irritada e ofendida, manda desmarcar o encontro. Tristão tenta justificar-se, mas Isolda não acredita. Ele, então vai atrás dela, disfarçado de mendigo, e pede sua clemência. Isolda o reconhece, mas mando os empregados enxotá-lo. Tristão volta para a Bretanha desolado, e a rainha se arrepende. Mesmo frente a atitude de Isolda, Tristão queria revê-la, e vai embora sem avisar ninguém. Veste-se miseravelmente e vai até o porto onde encontra uma nau que vai até Tintagel. Chegando lá, corta seu cabelo rente ao couro cabeludo, desenha nele uma cruz, lambuza seu rosto com uma erva mágica, e esta muda seu rosto. Pendura ainda uma clava no pescoço e dirige-se para o castelo de Marc. Chegando lá, ninguém o reconheceu, nem mesmo Isolda. Ele dizia ser Tristão, mas a rainha não acreditava, até que trouxeram Husdent, que foi o único a reconhecê-lo. O louco via a rainha todos os dias e ficavam em seu quarto, até que começaram a desconfiar e ele teve de ir embora. Voltou para a Bretanha, onde teve que guerrear, e caindo numa emboscada, viu-se ferido por uma lança envenenada. Ninguém conseguiu curá-lo. E sentindo que iria morrer, quis ver Isolda mais uma vez. Pediu a Kaherdin que fosse buscá-la, e Isolda, das Brancas Mãos escutou, e enfureceu-se e pensou em vingança.
Kaherdin foi, levando o anel. Tristão pediu-lhe ainda que levasse duas bandeiras, uma preta e outra branca, e que na sua volta içasse a branca , se Isolda viesse, e a preta caso contrário. Ao ver o anel, Isolda, a Loura, fugiu com Kaherdin. Tristão definhava. Isolda demorou-se por causa de várias tempestades, mas finalmente estavam chegando com a vela branca içada. Isolda das Brancas Mãos disse a Tristão que Kaherdin estava chegando, e este perguntou qual a cor da bandeira asteada, e ela, maldosamente, respondeu que era preta. Depois de ouvir isto Tristão morre. Ao chegar, Isolda fica sabendo do ocorrido e vai até ele, deita-se junto a ele, beija-o na boca e no rosto, abraça-o forte e morre. Quando o rei Marc sabe da morte dos dois, vai até a Bretanha buscar seus corpos. Sepulta-os separados por uma capela. Mas durante a noite, da tumba de Tristão brota um espinheiro verde, com flores perfumadas e elevou-se por cima da capela até o túmulo de Isolda, três vezes o cortaram, três vezes ele voltou. E, sendo assim, resolveram deixá-los em paz.
O Mito do Amor Cortês
O amor cortês trata da relação entre um homem e uma mulher: onde a mulher é uma dama, que também significa que ela é casada e, o homem é um celibatário, que se interessa por ela. Tudo começa por um olhar lançado, “é uma flecha que penetra pelos olhos, e crava-se no coração, incendeio-o, traz-lhe o fogo do desejo”. Este homem, então, ferido de amor ( no sentido carnal), sonha apoderar-se desta mulher. Essa mulher é muitas vezes esposa de seu próprio senhor, portanto é dona da casa que este freqüenta, ou seja, ela está hierarquicamente acima dele, é seu vassalo. Por ela, deixa de ser livre.
O amor cortês é um jogo, cujo mestre é o homem. A dama é uma peça fundamental, porém é mulher e não dispõe livremente do seu corpo, que pertenceu, primeiramente a seu pai, agora é de seu esposo. Carrega nele a honra deste esposo, Por esse motivo ela é altamente vigiada. Sem privacidade nos castelos, ao menor deslize, esta mulher é acusada, por ser frágil e fraca. É passível dos piores castigos, os quais seu cúmplice corre o risco de recebe-los.
Neste jogo, o mais excitante eram os perigos, o amor cortês era uma aventura, permeado por códigos secretos, discrição, olhares furtivos e pela ânsia de estarem junto com esta dama “num jardim secreto”.
Os homens esperam pelos favores que essas damas podem lhe conceder, e tais favores eram concedidos em etapas: primeiro um abraço, depois ela deixava beijar-se... A espera, que é muito descrita pelos trovadores era uma prova decisiva para se chegar a proximidade carnal. Mas estes homens continham seus ímpetos, pois deveriam manter o controle sobre seu corpo, fazendo com que esta situação se arrastasse indefinidamente. Então, o homem deseja a espera, o seu prazer atinge o clímax neste desejo, tornando o amor cortês onírico, ou seja, um sonho.
Conclusão
Tanto os romances de cavalaria quanto as cantigas de amor, eram expressões de dois aspectos indesejáveis na filosofia cristã: o amor entre o homem e a mulher e o individualismo. O amor era um tema “proibido” e “não natural”, pois, seus resultados acarretavam no plano social o insucesso das uniões matrimoniais que eram todas arranjadas, sem a exigência de sentimentos de qualquer das partes, e, portanto, era natural aos noivos só se conhecerem no momento do casamento. Já no amor cortês, presente tanto nas novelas de cavalaria quanto nas cantigas de amor, mesmo que sublime e sublimado, não era bem visto pela Igreja, que considerava pecaminoso até mesmo o amor entre pessoas casadas. Para a Igreja, o amor entre um homem e uma mulher deveria se restringir ao amor comunitário (a caridade, a fidelidade), e a relação sexual eram vista apenas para fins de reprodução. Todo sentimento que levasse ao prazer individual, tanto carnal quanto afetivo, era considerado pecaminoso. É natural, portanto, que a Igreja recriminasse essa forma de afeição, pois se tratava de um sentimento que surgia de dentro para fora, satisfazendo a anseios e necessidades subjetivas. Além disso, o amor cortês fazia a apologia do amor adúltero e colocava em risco todo o equilíbrio social da época, que consistia principalmente na realização, pelo matrimônio, de alianças de interesses políticos e econômicos. Mas, apesar de toda a força da Igreja Católica, esse tipo de amor se afirma como um dos principais pilares da cultura laica do período medieval, sobretudo nos seus últimos séculos.
No que concerne a história de Tristão e Isolda (BEDIER, Joseph), não só transgridem as regras sociais, como também a de vassalagem, traição de Tristão ao seu suserano o rei Marc.
Há de se entender que segundo José Roberto Mello: “A felonia era o pior crime no mundo feudal: a traição cometida por um vassalo contra a fidelidade jurada” (MELLO, 1992, p. 107), pois Tristão, dominado pelo amor, só a ele atende, em detrimento de qualquer dever ou costume, permitindo-se manter uma relação adúltera entre si e a esposa do seu suserano.
Dessa forma, também Marc é arrastado pelos sentimentos – ora de amor, ora de ciúme – e desatende ao seu papel, na medida em que não age em prol dos interesses e da vontade de seus súditos, mas sim de acordo com as próprias determinações, guiado por motivações de ordem sentimental e privado, em desacordo com o seu papel de monarca, representante da Cornualha. Ao permitir que a relação adúltera entre a esposa e o sobrinho seguisse sem punição, Marc dava vazão à insubmissão e punha em cheque a própria autoridade, desafiando as regras da moral vassálica, segundo a qual deveriam seus homens servir inteiramente aos seus interesses, esquecidos de si mesmos devotados e fiéis, leais ao seu rei e senhor. Por outro lado, ao insistir em uma punição sem o devido julgamento, Marc atentava contra uma lei ainda maior do que a sua: a lei divina, pois, apesar das evidências, cuida o romance de lembrar que “não é o fato que prova o crime, mas sim o julgamento. Os homens vêem o fato, mas Deus vê os corações e somente ele é o juiz verdadeiro”. (BEDIER, 1998, p. 53)
Passo 6 - Descreva, sucintamente, o argumento de A Demanda do Santo Graal e explique o significado do episódio intitulado “A tentação de Galaaz” (in: MOISES, Massaud. A Literatura Portuguesa através dos Textos. 28ª ed. São Paulo: Cultrix, 2002) para a configuração de um tipo específico de cavaleiro.A Demanda do Santo Graal
Os conteúdos da mística cristã estão todos sintetizados na imagem do Vaso Santo, cuja aparição, no Dia de Pentecostes, incita os cavaleiros da Távola Redonda, do Reino de Camaalot, a empreenderem a grande demanda. Em última análise, o santo cálice, usado por Cristo na sua última refeição e que teria sido trazido por José de Arimatéia, representa a Vida, a última ceia, o sangue de Jesus e, portanto, o próprio Cristo, que nela bebeu.
É preciso ressaltar que os cavaleiros, além de visualizarem o cálice santo, antes de saírem, ouvem missa. Há, portanto, uma “preparação espiritual”, de cunho cristão, que antecede a aventura. Assim, toda a epopéia funciona como uma cruzada particular objetivando a conquista da relíquia santa, uma cruzada dos cavaleiros do Rei Artur contra o Mal, representado por toda sorte de engodos e perigos e, em última análise, pela morte.
Como os registros das histórias de cavalaria foram, na sua maioria, feitos por monges, eles exercerem também uma espécie de censura nestes textos, punindo o herói pelo sentimento que nutre pela sua dama. Não é à toa, portanto, que apenas Galaaz pôde contemplar o Santo Graal, e Lancelot, embora tenha tido a mesma oportunidade, foi impedido no último momento de fazê-lo, pelo único motivo de que não era puro o suficiente, pois nutria um amor sem arrependimento por Guinevière.
Mais do que uma busca coletiva, o que temos é uma cruzada particular de cada um dos cavaleiros, no alargamento de sua individualidade. Por isso, cada herói terá que abrir, contando apenas com a proteção de Deus, seu próprio caminho.
Mas, dentre todos os cavaleiros, Galaaz é o mais perfeito: foi o único que conseguiu retirar a espada da pedra de mármore e, na interpretação de Massaud Moisés, esse personagem representa o próprio Cristo em sua peregrinação entre os homens, a fim de pacificá-los, defendendo os fracos e oprimidos. Neste sentido, afirma o teórico (MOISÉS, 1997: 35), a influência da educação cristã nesta novela foi tamanha que ela se reveste mesmo de uma função doutrinária, posto que exorta os leitores “à prática das virtudes cristãs e a pregar a salvação do mundo pelo exemplo de Cristo e seus apóstolos, encarnados em Galaaz e irmãos de armas”.
Galaaz é o cavaleiro imaculado, o grande eleito para conhecer os mistérios do Graal.
Sua pureza – tanto física como espiritual – é tal que, no momento de sua morte, Deus lhe envia como companhia Josefes, o filho de José de Arimateia, porque era virgem como Galaaz. Além disso, este cavaleiro realiza milagres de cura como Jesus, incluindo entre eles a cura de um paralítico com uma simples ordem para que ele se levantasse e a cura do Rei Peles, por meio das gotas de sangue que pingavam da lança que ferira Jesus na cruz. Todos esses elementos entram em profundo contraste com o ideal de vivência do amor terrestre, e isso ganha destaque quando Lancelot é contraposto a seu filho Galaaz. Aquele, devido aos amores com a rainha Guinevière, estava em pecado mortal e, ao contrário de seu filho, não teve a honra de ver os milagres do Santo Vaso.
O outro elemento que contrapõe as suas virtudes – a do cavaleiro amante e a do cavaleiro cristão virgem – é a proibição de que os cavaleiros levassem suas mulheres ou amantes na demanda do Graal, pois deveriam conservar-se puros de todos os pecados da carne.
Após vários dias de combate, Galaaz é hóspede de um senhor gentil, sendo postos à prova seu valor e sua dignidade de cavaleiro, na cena em mostra a sua tentação, onde é procurado no meio da noite pela filha do cavaleiro que o hospedava.
Essa lenda resume os enormes problemas psicológicos e espirituais que o cavaleiro teve para encontrar e expressar sua verdadeira individualidade, bem como as dificuldades e complexidades que teve em entender e preencher sua sexualidade. O mito, baseado no princípio cristão que apregoava o sofrimento ao herói pela negação do prazer corporal como “aquele que nunca conheceu mulher”, que deverá, portanto, conhecer o lado sombrio e obscuro da sua própria natureza.
O mito de Galaaz reflete simbolicamente essa dificuldade em aceitar o componente feminino inconsciente, conviver em harmonia com sua anima e animus em sua psique, devendo integrar-se para alcançar a plenitude de sua sexualidade.
Na lenda, a personagem feminina, identificada como “a donzela”, entra à noite no quarto de Galaaz, vestida apenas “em camisa”, e o encontra profundamente adormecido.
Tomada de desejo sexual pelo belo e forte cavaleiro, a donzela deita-se a seu lado e fica sem saber como derpertá-lo: “Quando a donzela viu que dormia, nom soube que fezesse, porque se o despertasse, ele a teria por louca e que assi costumava fazer aos outros”. (139)
Ocorre, diante desse impasse, uma profunda mudança nos sentimentos da donzela que se penitencia diante da pureza do jovem adormecido, compreendendo que, com ele, os seus instintos carnais não seriam satisfeitos. O encontro com o elemento complementar da sua psique, o animus, faz com que a sedutora mergulhe no inconsciente de descubra o lado sombrio da sua personalidade. Esse confronto entre a Anima acordada e atenta aos desejos sexuais e um Animus adormecido remonta aos mitos de Eros e Psique. E, é por medo de perdê-lo que começa a soluçar a donzela. Galaaz afinal acorda:
“Ai, donzela! Quem vos enviou a cá? Certas, mau conselho vos deu; e eu cuidava que de outra natureza érades vós; e rogo-vos por cortesia e por honra de vós, que vos vades daqui.
Humilhada e preterida, insiste a donzela no sentido de convencer a Galaaz da pureza do seu amor. Mais uma vez, o cavaleiro fala com firmeza, pedindo que saia do quarto e dizendo-lhe que não desonraria a casa do seu hospedeiro, nem trairia o seu voto de castidade: “- Como? Cavaleiro, de toda maneira querede ser tam vilão, que nom queredes me atender de forma alguma?
- Ai, boa donzela! Espera um pouco e nom te mates assi, ca eu farei todo teu prazer.
E ela, que estava tam sem juízo que não raciocinava mais, respondeu per senha:
- Senhor cavaleiro, tarde mo dissestes.
Entam ergueu a espada e feriu-se de toda sua força per meio do peito, de maneira que a espada passou-a e pareceu na outra ponta, e a donzela caeu em terra morta, que nom falou mais cousa” (140)
A morte da donzela é a morte psíquica de uma imagem arquetípica da Anima, o lado contra-sexual da personagem, já que, Galaaz não soube ou não pode, por imposição de sua máscara de cavaleiro casto e honrado, incorporar o a força do desejo implorada pela Anima, não se completando ao se negar à união, repelindo o seu lado oposto, mas necessariamente complementar enquanto indivíduo dotado de sexualidade.
Referências:
http://www.cav-templarios.hpg.ig.com.br/aspectos_gerais_da_europa_do_sec.htm
http://www.revistamirabilia.com/Numeros/Num6/art4.html
BÉDIER, Joseph. O romance de Tristão e Isolda. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
MELLO, J. R. O cotidiano no imaginário medieval. São Paulo: Contexto, 1992.
MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa através dos textos. 22 ed.São Paulo: Cultrix, 1997.
BOMFIM, Edilma Acioli de Melo. Razão mutilada: ficção e loucura em Breno Accioly. UFAL, 2005
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