Bocage. Arcadismo Brasileiro – momento histórico e características.
Lírica: Claudio Manuel da Costa. Tomás Antonio Gonzaga.
Épica: Basílio da Gama e Santa Rita Durão
A obra poética de Manuel Maria de Barbosa du Bacage (1765-1805) é plural em alternativas temáticas, rítmicas, estilísticas e até ideológicas. Podemos, no entanto, de maneira didática pensá-la sob três aspectos principais:
1) Como usuária de alguns lugares comuns (topos) da poesia arcádica, tais como o inutilia truncat (cortar inutilidades da linguagem), o aurea mediocritas(equilíbrio de ouro, meio termo), o fugere urbem (fuga da cidade, gosto simplicidade do campo), o locus amoenus (lugar sossegado) e o carpe diem (aproveitar o dia, o gozar agora).
a. O arcadismo foi assim denominado por se tratar de uma referência à Arcádia, região bucólica do Peloponeso, na Grécia, tida como ideal de inspiração poética.
a.1. A principal característica desta escola é a exaltação da natureza e de tudo o que lhe diz respeito.Como se percebe ao longo do poema, principalmente nos trechos:
"Olha o Tejo a sorrir-se! Olha: não sentes
Os Zéfiros brincar por entre as flores?"
(...)
"Que alegre campo! Que manhã tão clara!
Mas ah!, tudo o que vês, se eu não te vira,
Mais tristeza que a morte me causara."
a.2. Muitos poetas do Arcadismo adotaram pseudônimos de pastores gregos ou latinos.Percebe-se isto quando menciona o trecho que segue, dando entender tratar-se de um pastor falando:
"as flautas dos pastores,
Que bem que soam, como estão cadentes!"
a.3. Outras características, Locus amoenus (lugar aprazível, ameno) e Fugere urbem (fuga da cidade):
Naquele arbusto o rouxinol suspira;
Ora nas folhas a abelhinha pára.
Ora nos ares, sussurrando, gira.
Que alegre campo! Que manhã tão clara!
(...)
b. Partes que enfatiza o cenário:
Olha, Marília, as flautas dos pastores,
Que bem que soam, como estão cadentes!
Olha o Tejo a sorrir-se! Olha: não sentes
Os Zéfiros brincar por entre as flores?
(...)
Ei-las de planta em planta as inocentes,
As vagas borboletas de mil cores!
Naquele arbusto o rouxinol suspira;
Ora nas folhas a abelhinha pára.
Ora nos ares, sussurando, gira.
Que alegre campo! Que manhã tão clara!
(...)
c. Partes outra que se refere ao sentimento do eu lírico:
"Vê como ali, beijando-se, os Amores
Incitam nossos ósculos ardentes!"
(...)
"Mas ah!, tudo o que vês, se eu não te vira,
Mais tristeza que a morte me causara."
d. A visão subjetiva da natureza significa que esta, expressa aquilo que o eu lírico está sentindo no momento narrado, diferentemente do Arcadismo, por exemplo, que a natureza é mera paisagem. No Romantismo, a natureza interage com o eu lírico. A natureza funciona quase como a expressão mais pura do estado de espírito do poeta.
"Vê como ali, beijando-se, os Amores
Incitam nossos ósculos ardentes!"
2) Certo egotismo, angustia e interesse por temas noturnos ou mortuários que contribuiriam para que a posteridade o enxergasse também como pré-romântico.
Oh retrato da morte, oh Noite amiga
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
Calada testemunha de meu pranto!
De meus desgostos secretária antiga!
Pois manda Amor, que a somente os diga,
Dá-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel, que a delirar me obriga:
E vós, oh cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!
Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar meu coração de horrores.
3) Uma veia satírica que descortinava as mais baixas atividades morais, sociais e sexuais do ser humano:
a. Num soneto cáustico de Bocage, evocativo de uma sessão da "Nova Arcádia":
"Preside o neto da rainha Ginga
À corja vil, aduladora, insana.
Traz sujo moço amostras de chanfana,
Em copos desiguais se esgota a pinga.
Vem pão, manteiga e chá, tudo à catinga;
Masca farinha a turba americana;
E o oragotango a corda à banza abana,
Com gesto e visagens de mandinga.
Um bando de comparsas logo acode
Do fofo Conde ao novo Talaveiras;
Improvisa berrando o rouco bode.
Aplaudem de contínuo as frioleiras
Belmiro em ditirambo, o ex-frade em ode.
Eis aqui de Lereno as quartas-feiras."
b. Eis uma quadra satírica atribuída a Bocage, que visa o clero:
"Casou-se um bonzo da China
Com uma mulher feiticeira
Nasceram três filhos gêmeos
Um burro, um frade e uma freira."
c. Os verbos “sentir”, “abrir” e “entrar”, reforçam a imagem do ato sexual. A personificação da porta no ato de murmurar reitera o caráter da mulher acessível pronta a entregar-se aos desejos mais “impuros do sexo”, sendo, portanto, um poema visivelmente erótico. Engana a primeira vista por parecer amoroso, logo essa falsa impressão se desfaz como bem se pode destacar a partir do primeiro quarteto:
“Amar dentro do peito uma donzela;
Juntar-lhe pelos céus a fé mais pura;
Falar-lhe conseguindo alta ventura,
Depois da meia noite na janela:
Fazê-la vir a baixo, e com cautela
Sentir abrir a porta que murmura;
Entrar pé ante pé, e com ternura
Apertá-la nos braços casta e bela
Beijar-lhe os vergonhosos, lindos olhos
E a boca, com prazer o mais jucundo,
Vê-la rendida enfim a Amor fecundo,
Ditoso levantar-lhe os broncos folhos
É esse o maior gosto que há no mundo"
PASSOS
Passo 1 - A partir da leitura dos três sonetos abaixo, indique e justifique em que linha da obra de Bocage, dentre as que acabamos de descrever, cada um deles se enquadraria.
ANEDOTISMO - Em especial nos epigramas, revelando uma graça fácil e anedótica, que através dela, troça de toda a sociedade.
Lavrou chibante receita
Um doutor com todo o esmero;
Era para certa moça,
Que ficou sã como um pero.
"Tão cedo! É milagre!"
A mãe (que de gosto chora)
"Minha mãe, não é milagre,
Deitei o remédio fora!"
LÍRICO - Bocage consegue verdadeiramente libertar-se dos esquemas rígidos das estruturas arcádicas e dá livre expansão aos seus sentimentos e às suas inquietudes, demonstrando a verdadeira dimensão do seu talento, na ordem geométrica determinada, lógica, expressiva e rica em simetrias e antíteses:
Marília, nos teus olhos buliçosos
Os Amores gentis seu facho acendem;
A teus lábios, voando, os ares fendem
Terníssimos desejos sequiosos.
E embora se encontre presente em alguns de seus poemas um amor sonhado, apenas entrevisto, um amor-burguês no aconchego de um lar, é muito mais o amor tortuoso, violento e doentio que alastra em rubras labaredas de paixão que sobressai na sua obra, aliado não poucas vezes ao ciúme que o devora.
Daí irromper do mais profundo do seu “Eu”, delirando com o "negro, pestífero ciúme", arrancando da alma pavorosos gritos como na canção intitulada "O Delírio amoroso":
Gritemos, pois, frenéticos ciúmes,
Gritemos outra vez, que dos aflitos,
São triste refrigério os ais e os gritos.
PRÉ-ROMANTICO – Nos emblemas fúnebres tipicamente românticos: o luar, florestas sombrias, mochos que piam, feiticeiras, ciprestes, tochas, túmulos...
Oh Trevas, que enlutais a natureza,
Longos Ciprestes desta selva anosa,
Mochos de voz sinistra e lamentosa,
Passo 2 - Além dos lugares comuns mencionados na etapa anterior sobre a poesia árcade, segundo a opinião da maioria dos críticos e historiadores, poetas como Claudio Manuel da Costa (1729-1789), Tomás Antonio Gonzaga (1744-1810), Silva Alvarenga (1749-1814) e Domingos Caldas Barbosa (1739-1800) teriam colaborado para uma primeira apreensão poética da terra brasílica e para fundar um dos traços distintivos da poesia nacional em relação à portuguesa: a suavidade lírica, a musicalidade deslizante. Ambas as características, que se tornariam essenciais e até programáticas no período romântico, nas palavras de Antonio Candido, fizeram com que na poesia de Alvarenga, por exemplo, “os contornos da natureza” adquirissem “fluidez musical”. Leia os dois poemas abaixo – o primeiro de Claudio Manuel da Costa, o segundo de Tomás Antonio Gonzaga – indicando e justificando se neles existem e quais seriam:
a) as características típicas do arcadismo:
1 – retomada da teoria aristotélica da arte como imitação da natureza, usando a razão. O poeta apreende o sentido de perfeição expresso pela natureza e tenta reproduzi-lo ao escrever;
2 – respeito às teorias literárias dos antigos, utilizando as normas poéticas da Antiguidade;
3 – simplicidade na forma e no conteúdo dos poemas; versos curtos; ausência de rimas em alguns versos;
4 – bucolismo (exaltação da vida do campo, uso de cenários pastoris);
5 – presença da mitologia, num retorno aos valores clássicos;
6 – equilíbrio entre a razão e a fantasia, através de uma “disciplina literária” a ser estabelecida pelas Arcádias e seguida por seus membros;
7 – uso de palavras simples, de fácil entendimento, sem serem vulgares;
8 – desejo de dar à literatura uma função social, de caráter didático e doutrinário. A literatura deve ser acessível a todos;
9 – preocupação com a finalidade moral da literatura;
10 – desejo de mostrar uma realidade onde nada seja feio, idealizando-a.
b) os recursos rítmicos e lingüísticos que dão “fluidez musical” ao texto.
V CANÇONETA À LIRA DESPREZO
Ah! Quantas vezes, quantas
Do sono despertando,
Doce instrumento brando,
Te pude temperar!
Só tu (disse) me encantas;
Tu só, belo instrumento,
Tu és o meu alento;
Tu o meu bem serás.
Cláudio Manuel da Costa”, é um poeta de transição que está entre o Cultismo e o Arcadismo. Busca o equilíbrio da colonização em sua poesia, valorizando o brilho de sua natureza local, aliando-o aos traços estéticos europeus. Sua poesia revela inquietações existenciais, conflitos amorosos, dilaceramento interior e um acentuado lirismo.
Lira IV da 1ª. Parte
Marília, teus olhos
São réus, e culpados,
Que sofra, e que beije
Os ferros pesados
De injusto Senhor.
Marília, escuta
Um triste pastor.
Mal vi o teu rosto,
O sangue gelou-se,
A língua prendeu-se,
Tremi e mudou-se
Das faces a cor.
Marília, escuta
Um triste pastor.
A vista furtiva,
O riso imperfeito,
Fizeram a chaga,
Que abriste no peito,
Mais funda e maior.
Marília, escuta
Um triste pastor.
Dispus-me a servir-te;
Levava o teu gado
À fonte mais clara,
À vargem e prado
De relva melhor.
Marília, escuta
Um triste pastor.
Se vinha da herdade,
Trazia dos ninhos
As aves nascidas,
Abrindo os biquinhos
De fome ou temor.
Marília, escuta
Um triste pastor.
Se alguém te louvava,
De gosto me enchia;
Mas sempre o ciúme
No rosto acendia
Um vivo valor.
Marília, escuta
Um triste pastor.
Se estavas alegre,
Dirceu se alegrava;
Se estavas sentida,
Dirceu suspirava
À força da dor.
Marília, escuta
Um triste pastor.
Falando com Laura,
Marília dizia;
Sorria-se aquela,
E eu conhecia
O erro de amor.
Marília, escuta
Um triste pastor.
Movida, Marília,
De tanta ternura,
Nos braços me deste
Da tua fé pura
Um doce penhor.
Marília, escuta
Um triste pastor.
Tu mesma disseste
Que tudo podia
Mudar de figura,
Mas nunca seria
Teu peito traidor.
Marília, escuta
Um triste pastor.
Tu já te mudaste;
E a olaia frondosa,
Aonde escreveste
A jura horrorosa,
Tem todo o vigor.
Marília, escuta
Um triste pastor.
Mas eu te desculpo,
Que o fado tirano
Te obriga a deixar-me,
Pois basta o meu dano
Da sorte que for.
Marília, escuta
Um triste pastor.
Gonzaga possui um lirismo amoroso que o distingue de todos os escritores desse período. Sem a menor nota de sensualismo ou paixão, sua concepção de amor é serena, burguesa. Usa um tom coloquial em seus poemas, criando uma linguagem galante e singela. Seus temas mais comuns são: “carpe diem,” “fugere urbem,” “aurea mediocritas”.
Passo 3 - Em sua Formação da Literatura Brasileira Antonio Candido compreende a “literatura” como uma forma de “sistema”. Os fatores necessários para a formação de tal sistema e, portanto, essenciais para a existência do que entende como sendo “literatura” seriam: o público, os escritores e as obras. Por isso, segundo esse ponto de vista, o primeiro momento histórico-literário no Brasil que conseguiu definir de fato uma prática literária foi o Arcadismo. Explique quais os motivos que levaram Antonio Candido, em seu texto “A dois séculos d’O Uraguai”, a considerar a obra de Basílio da Gama (1740-1795) como sendo uma espécie de anti-epopéia?
Qual elemento Candido considera que acaba salvando o poema, pelo fato de passar a ocupar o primeiro plano, mesmo que a princípio aparecesse como um mero pretexto?
É no importante comentário de Candido, que parece ser primordial para a definição: “O disfarce épico de Basílio da Gama”. Ele afirma que Basílio abandonou o espírito de um poema épico, quando Uraguai deixa de ser a celebração de um herói para tornar-se o estudo de uma situação: o choque de culturas. Além disso, despreza ou trata sem entusiasmo a guerra, apesar de ser uma epopéia de assunto militar. Então, fica claro a importância da obra, não como um grande texto com estrutura épica, mas como precursor dos românticos e da nossa literatura nacional.
Em Uraguai, o autor utiliza imagens para resssaltar o ambiente em transformação que é o Brasil, seja com a presença das paisagens naturais ou com a relação da guerra entre brancos e índios. Candido ressalta que o poeta (Basílio da Gama) demonstra sua posição quanto ao conflito entre o “civilizado” e o “selvagem”. Ao mesmo tempo em que revela uma tendência de apoio aos índios pela sua simpatia a eles, sabe da importância do trabalho dos brancos que estão motivados a “civilizar” os índios. Porém para isso usam da violência da guerra para manter o controle sobre as terras invadidas.
O poema busca esclarecer o problema através do estudo da situação que aponta o conflito entre índios e brancos. O poeta percebe isso com maestria, demonstrando em sua leitura que o poema não versa somente sobre o choque entre culturas, mas também sobre a formação de nova civilização provinda da Europa e a tradição da civilização européia que vê a nossa como selvagem.
Candido aponta que a visão do momento histórico de Basílio além de perceber o ambiente natural e a guerra, vai orientar o leitor sobre as relações sociais. Assim, o poema visa fazer uma retrospectiva: sentimental pela natureza, reflexão sobre a vida e a guerra, o uso da Razão para estabelecer uma visão pessoal sobre o conflito, tomando uma posição favorável ao índio. E apesar de ressaltar a guerra, Candido observa que na descrição poética de Basílio há o testemunho quanto às artes – agricultura e pecuária, como também sobre a vida do homem (camponês) que não está no campo de batalha.
Candido também reconhece que Basílio percebe o jogo de interesses no campo de batalha, daí a simpatia pelos índios. Exalta os índios como elemento natural da terra e por isso mostra-se defensor de seus interesses, acusando os jesuítas de invasores e transgressores das tradições indígenas. Basílio, segundo Candido, tem um “sentimento da irrupção do homem das cidades no equilíbrio de civilização natural”. Portanto podem-se destacar a expansão dos europeus nas “terras descobertas” como uma fuga das cidades e o sentimento dos índios em defender seu ambiente, para não perder seu espaço natural.
De acordo com as pesquisas de Candido, o herói Cacambo não é apenas um nome inspirado na obra de Voltaire, mas um índio que buscou representar os índios no conflito com os brancos.
Candido percebe a influência de Basílio da Gama como precursor dos autores românticos, da literatura nacional. O crítico também observa que se pode “distinguir nele o nativismo do interesse exterior pelo exótico, parecendo haver predomínio deste, pois o Indianismo não foi para ele uma vivência, como para os românticos, foi antes um tema arcádico transposto em roupagem mais pitoresca”.
Passo 4 - Explique, de modo sucinto, o argumento da obra Caramuru (1781) de Frei José de Santa Rita Durão (1722-1784).
Como Antonio Candido entende o “movimento” e a “parada” na obra Caramuru?
1781 - Publica Caramuru, epopéia em dez cantos, com versos decassílabos e oitava rima camoniana.
Frei José de Santa Rita Durão é um poeta do fogo, um temperamento solar e tumultuoso, que mostra inclusive em certo trecho como o fogo vence a água. Foi o caso que o chefe Jararaca, raciocinando com os seus, procurou mostrar que as armas do Caramuru nada podiam no mar, porque este apaga o fogo e, com isso, o poder do intruso:
São nágua, terra e ar mui diferentes
Os anhangás, que reinam divididos;
Uns, que só no ar e fogo são potentes,
Causam ventos, trovões, raios temidos;
O terremoto e pestes sobre as gentes
Movem outros na terra conhecidos:
Este, porém, que ao estrangeiro açode,
Nágua não poderá, se em fogo pode.
Mas Diogo arma um bombardeio infernal em canoas carregadas de pólvora e abrasa o mar, destroçando os inimigos. Filho do fogo, filho do trovão, mas também dragão do mar, ele domina os elementos e instaura a supremacia absoluta da violência travestida em civilização. Voltando à estrofe de Camões, pode-se dizer que aqui Diogo está mais perto da brutalidade gigantesca dos romances de cavalaria, agravada pelos combates em massa e a potência mortífera das armas de fogo.
Uma escolha de cenas e expressões violentas mostraria a extensão e a intensidade desse gosto, como se pode ver pela amostra colhida só na batalha entre as tribos inimigas descritas no Canto IV: “negro sangue o campo inunda”, “rota a cabeça o triste expira”, “quantos a forte mão talha em pedaços”, “do sangue a fronte enxuga”, “com a garra e dente a pô-la em mil pedaços”, “salta-lhe em cima e corta-lhe a cabeça”, “o busto sobre o chão tremendo / E a terrível cabeça sobre a espada”.
Mas de espaço a espaço surgem paradas admiráveis, remansos espraiados e singelos que marcam o contraste e mostram como esse poeta belicoso é capaz de sentir também qual seria a ordem ideal das coisas e dos seres, entre os tumultos da guerra e a agitação geral da vida. Assim, alguns momentos mais bonitos do poema são descrições onde entra a água, nos intervalos do fogo. A água com o vento brando e a flor, num ritmo corredio, que marca a suspensão provisória da violência, como, por exemplo, a descrição do paraíso dos índios, assimilado ao da Bíblia. Mas de espaço a espaço surgem paradas admiráveis, remansos espraiados e singelos que marcam o contraste e mostram como esse poeta belicoso é capaz de sentir também qual seria a ordem ideal das coisas e dos seres, entre os tumultos da guerra e a agitação geral da vida. Assim, alguns momentos mais bonitos do poema são descrições onde entra a água, nos intervalos do fogo. A água com o vento brando e a flor, num ritmo corredio, que marca a suspensão provisória da violência, como, por exemplo, a descrição do paraíso dos índios, assimilado ao da Bíblia Uma dessas paradas, particularmente significativa, é no começo do Canto IV, quando algumas estrofes remansosas formam por antítese o intróito ao tumulto marcial que dali por diante ocupará dois cantos. O guerreiro Jararaca vê Paraguaçu dormindo e se apaixona por ela, mas (como é narrado a seguir) o pai não consente que a tome por mulher, e nem ela o deseja, porque está predestinada a casar com o futuro Diogo; o chefe índio então se enfurece e promove a grande guerra, para a qual mobiliza 138 000 (!) guerreiros de várias tribos — o que permite ver como o poeta, quando se tratava de combates, abandonava a realidade numérica das suas fontes e entrava na escala ariostesca, próxima dos romances de cavalaria.
Este episódio refere-se a um dos momentos mais felizes do poema:
2.
Dormindo estava Paraguaçu formosa,
Onde um claro ribeiro a sombra corre;
Lânguida está, como ela, a branca rosa,
E nas plantas com a calma o vigor morre;
Mas buscando a frescura deleitosa
De um grão maracujá, que ali discorre,
Recostava-se a bela sobre um posto,
Que, encobrindo-lhe o mais, descobre o rosto.
3.
Respira tão tranqüila, tão serena,
E em langor tão suave adormecida,
Como quem livre de temor, ou pena,
Repousa, dando pausa à doce vida.
Ali passar a ardente sesta ordena
O bravo Jararaca, a quem convida
A frescura do sítio e sombra amada,
E dentro dágua a imagem da latada.
4.
No diáfano reflexo da onda pura
Avistou dentro dágua buliçosa,
Tremulando, a belíssima figura.
Pasma, nem crê que a imagem tão formosa
Seja cópia de humana criatura.
E remirando a face prodigiosa,
Olha de um lado e de outro, e busca atento
Quem seja original deste portento.
5.
Enquanto tudo explora com cuidado,
Vai dar cos olhos na gentil donzela;
Fica sem uso dalma arrebatado,
Que toda quanta tem se ocupa em vê-la:
Ambos fora de si, desacordado
Ele mais de observar coisa tão bela,
Ela absorta no sono em que pegara,
Ele encantado em contemplar-lhe a cara.
6.
Quisera bem falar, mas não acerta,
Por mais que dentro em si fazia estudo.
Ela de um seu suspiro olhou desperta;
Ele daquele olhar ficou mais mudo.
Levanta-se a donzela mal coberta,
Tomando a rama por modesto escudo;
Pôs-lhe os olhos então, porém tão fera,
Como nunca beleza se pudera.
7.
Voa, não corre, pelo denso mato,
A buscar na cabana o seu retiro;
E, indo ele a suspirar, vê num ato
Em meio ela fugir do seu suspiro
Nem torna o triste a si por longo trato.
Até que, dando à mágua algum respiro
Por saber donde habita, ou quem seja ela.
Seguiu voando os passos da donzela.
Qual destes dois elementos considera mais relevante em sua análise? Explique.
O gosto pelo contraste e a energia das descrições, enquadrando o senso da crueldade, a complacência nos transes sangrentos e, de repente, o desejo de remanso e bonança, a ternura e a leveza da alma, sendo marcas da personalidade inquietante do poeta, que entre as concepções do passado e as do presente, entre dois países e duas culturas, é possível mostrar muitos exemplos de entrechoque, contraste, embate moral e estético, que não são colaterais, mas essenciais ao texto, pois o leitor logo percebe neste o senso e o gosto do conflito em todos os níveis: de sonoridade, de palavras, de paixões, de grupos humanos e de culturas.
Dividir o poeta ao meio, seu corpo e sua alma, não seria uma apreciação correta da obra, pois uma fia-se em outra, dando forma a concepção artística de Caramuru.
BIBLIOGRAFIA
http://www.citi.pt/cultura/literatura/poesia/bocage/
http://purl.pt/1276/1/anedotico.html
Candido/ Antonio. Caderno de análise literária – SÉRIE Fundamentos - NA SALA DE AULA. Ex-professor de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo. 8a edição / 9a impressão, Editora Ática. Digitalizado: http://groups.google.com.br/group/digitalsource:
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